qui. maio 23rd, 2019

No cristianismo progressista, o Diabo veste prada.

Por: Guilherme Júnior Guimarães

No cristianismo, existe uma linha muito tênue entre transformar o conceito de amor em boas obras e negar o cristianismo bíblico. O que quero dizer é que alguns, querendo fazer o cristianismo parecer uma religião cuja única norma é o amor e torná-lo popular e abrangente no sentido de assistenciar a todos sem contrapartida, afastaram também a Igreja da Bíblia.

A marca da Teologia Liberal é entender a Bíblia como um livro relativo, às vezes meramente informativo ou mitológico. Nessa teologia, a norma do amor se sobrepõe a tudo, pois fica o essencial das ideias e despreza-se o contraditório em relação às demandas do mundo, ainda que a Bíblia claramente apresente a inadequação de tais práticas. Assim, para aqueles que sem perceber se lançam nessa teologia com o suposto argumento do amor, qualquer coisa que seja bonita, assistencialista, aberta, popular, capaz de estabelecer com o secular pontos de contato, ainda que sejam antibíblicos, passa a ser válida. A legitimação dessas práticas tem como fundamento os valores assistencialistas meramente humanos e ideológicos. Pessoas assim pensam, veladamente, por exemplo, que Karl Marx entendeu melhor o amor de Jesus do que João Calvino. Tomemos como exemplo o esperançoso teólogo alemão Jürgen Moltmann, que chegou a chamar o envolvimento de Deus com o ser humano de “apaixonado” e reduziu os atributos divinos para satisfazer a norma do amor: “(…) em Deus, necessidade e liberdade são transcendidos pela própria natureza divina do amor” [1]. Sobre a criação, Moltmann pensava num conceito de autolimitação divina para harmonizar seus ideais normativos do amor com as dificuldades encontradas em algumas partes do conteúdo da revelação.

É fato que várias dessas teologias ditas liberais tentaram dialogar com dilemas humanos evidentes e milenares, inerentes à natureza social da humanidade, tais como injustiça, desigualdade econômica, violência e opressão. Nesse caso, é evidente que tais teologias irão produzir uma narrativa favorável ao injustiçado, ao economicamente desguarnecido, à vítima de violência e ao oprimido. Nenhum problema quanto a isso. O problema é quando há um choque e uma disputa de narrativas e conceitos em detrimento da causa do oprimido. A batalha social dessas teologias não é no chão das desigualdades e das opressões,  mas nos castelos de vidro das academias teológicas. Na academia, a narrativa não é daquele tipo de tomar o bloco de anotação e registrar o sofrimento cotidiano do pobre, do oprimido, do violentado e do desguarnecido. A batalha das academias teológicas liberais é contra toda forma “ideológica” de opressão. Todos os complexos conceitos teológicos criados por algumas teologias liberais em nada dialogam com a pobreza e o sofrimento reais do povo.

Quando Jürgen Moltmann demonstrou seu entusiasmo cristológico no que tange à questão do sofrimento, ele estava embebecido de uma revolta existencial pós-guerra totalmente ideologicamente enviesada. Sobre a comunicação cristológica do sofrimento, ele disse: “descobrimos que a fé cristã nasce do sofrimento daquele que foi crucificado e do poder libertador do Cristo ressurreto” [2], mas também disse, no mesmo escrito: “(…) uma teologia liberal e burguesa jamais teria chance conosco”. Nós sabemos que na Idade Média o termo burguesia denominava uma classe social, no Marxismo passou a denominar uma classe econômica privilegiada (dita uma classe de opressores e exploradores) e hoje denomina uma classe de capitalistas endemoninhados, incompassivos e que merecem morrer.

Dado o contexto social de Jürgem Moltmann durante a segunda guerra mundial, ao que tudo indica ele está usando o termo burguesia na acepção marxista, em que o burguês é o detentor dos meios de produção e sua família e propriedade privada a origem da exploração do proletariado. Sem nenhum preconceito, mas é ou não é de se esperar que o conceito teológico de Jürgen da identificação do sofrimento de Cristo seja ideologicamente orientado? Ao desenvolver sua ontologia escatológica, o esperançoso Moltmann faz o que os teólogos liberais faziam de melhor: orientar a teologia ideologicamente e deixar a Bíblia dentro da gaveta da escrivaninha: “a tarefa da teologia não é tanto (…) proporcionar uma interpretação do mundo, e sim mudar o mundo à luz da esperança cristã” (…) [3]. E, então, vemos o germe da Teologia Liberal: instrumentalizar a igreja (aqui Moltmann fala sobre teologia de lá do alto do castelo de vidro, mas hoje os teólogos cristãos progressistas querem transformar a igreja no lar dessa teologia) para transformar o mundo por meio dessa esperança cristã que, diga-se de passagem, não é evangelho, mas ideologia apartada da Sagrada Escritura.

Aceitar o secularismo, misturar figuras pagãs com o cristianismo bíblico, atos ecumênicos libertários, ideias socialistas mirabolantes e ideais políticos utópicos passam a fazer parte de uma agenda meramente filosófica e humanista, sem o poder do Espírito e repleta do poder do academicismo progressista. Tenho a impressão de que pastores assim são melhores em ONGs do que em Igrejas e melhores em universidades do que em cultos de oração (porque eles sempre se engajam nas primeiras e não nas segundas). O engajamento político desse pessoal, ainda que local, é maior do que o engajamento na implantação de uma classe de estudos bíblicos na igreja. Preparar líderes em oração e ensino da Palavra passa a ser menos importante do que oferecer esperança político-econômica, porquanto, dizem: “aqui Jesus está sendo pregado em atos em vez de palavras”. Não sei, mas tendo a pensar que não. Jesus multiplicou pães para os que ouviam a Palavra, mas repreendeu àqueles que o buscavam apenas por causa disso. Os exemplos do Novo Testamento são todos de assistência às comunidades locais que faziam parte da igreja, nunca procurando se engajar na solução de problemas sociais da época. Apenas Tiago alerta para o fato de que não devemos pregar a quem estiver com estômago vazio, mas não ensinou a saciar a fome apenas como gesto de amor (Tiago 2.14-17).

Alguns cristãos idealistas e progressistas estão imbuídos de aplicações estranhas sobre um amor que é salvífico (salvar do pecado e da condenação eterna, não apenas da condição social). Querem fazer o amor de Jesus aderir às agendas ideológicas meramente assistencialistas e, para isso, transformam a igreja no que for preciso para alcançarem tais objetivos, mesmo que, em suas práticas, estejam indo contra o ensinamento da Bíblia. A Teologia Liberal, que despreza a Bíblia em suas determinações, é sorrateira. Se veste de ONG, se veste de festa, se veste de ecumenismo, se veste de coelhinho da páscoa, papai noel e em breve não duvido que também se vestirá de dia das bruxas. E todos pensam que isso é lindo, é aberto, é inclusivo… tudo pode e tudo e válido, desde que o mundo aplauda os crentes dizendo que estão sendo amorosos. Como dizem, “de boas intenções o inferno está cheio”. No cristianismo progressista, o diabo veste prada. Igrejas e pastores assim estão (se não já chegaram) a um passo da teologia liberal, que relativiza ou nega a Bíblia, encaixota Deus em conceitos emprestados de filosofias ateístas, ameniza o pecado e suas consequências e ensina a salvação de todos (porque Deus é amor).

[1] Jürgen Moltmann, Coming of God, p.325, em Grenz, Stanley J. Teologias Contemporâneas, p. 138. 

[2] Jürgen Moltmann, “Forward”, em Meeks, Origins of the theology of hope, p. x., em Grenz, Stanley J. Teologias Contemporâneas, p. 125-26.

[3] Jürgen Moltmann, An autobiographical note, p.222, 204; Moltmann, Theology of hope, p.84 em Grenz, Stanley J. Teologias Contemporâneas, p. 131.

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