sáb. ago 17th, 2019

Sobre um aspecto da relação entre evangelização e justiça social: o uso dos recursos financeiros da comunidade de fé.

Por: Guilherme Júnior Guimarães

Alguns cristãos criticam o apego às coisas materiais, mas na prática não entenderam o valor transcendental da vida eterna, pois não se importam tanto com a pregação da Boa Palavra, da Boa Nova quanto se importam com justiça social. A Bíblia ordena aos cristãos se importarem com a pregação do evangelho e fazê-la enquanto promovem justiça social com o seguinte fim: dar à audiência condições de ouvir e entender a Palavra (cf Tiago 2.25-26). Contudo, alguns cristãos inverteram a lógica do ensinamento bíblico, reduzindo o evangelho às boas obras, esquecendo-se eles que “pelas obras de caridade, ninguém será salvo”; as obras devem ser parte do anúncio do evangelho (no espiritismo kardecista e também no catolicismo romano, as boas obras são parte dos meios pelos quais se alcança vida após a morte, seja reencarnando de maneira melhor, no caso do kardecismo, ou indo para o céu sem passar pelo purgatório, no caso do catolicismo romano). Sem evangelho, as obras de caridade, em termos do impacto eterno, ficam sem fruto. Você não prega e faz justiça social? Os ímpios também fazem o mesmo (cf Mateus 5.46-47). Esse tipo de comportamento é um sintoma da exacerbação de dois sentimentos: por um lado, apego à existência terrena; por outro lado, falta de percepção da importância da vida eterna. Preterir a pregação pressupõe o fato de que o inferno é menos doloroso do que a injustiça social.

O ensinamento bíblico é sobre alimentar, cuidar e assistenciar o pobre [durante] a evangelização. A caridade e as boas obras devem abrir o caminho para a evangelização. O que tem ocorrido hoje, e esse é o erro bíblico daqueles que assim o fazem, é instrumentalizar a igreja para a caridade, fazendo dela um meio para a justiça social. Esse tipo de viés é extremamente perigoso. Receio que se todas as comunidades eclesiásticas se debruçarem em ideais de justiça social e instrumentalizarem e aparelharem a igreja ou as instituições paraeclesiásticas com essa finalidade, relegarão ao segundo plano a pregação veemente e impactante do evangelho, além do ensino paulatino e consistente da Bíblia dentro da igreja entre os já convertidos que, agora, precisam ser aperfeiçoados e edificados.

A igreja substituir ou sequer alternar sua missão evangelizadora com o ideal de transformar socialmente o mundo sem a anuência de Jesus traz a ideia de que a igreja foi chamada a restaurar a sociedade pelas suas forças e transformar o mundo em novos céus e terra pela sua agência independente. Isso é uma completa inversão de propósito.

Segundo o ensinamento do Evangelho de Jesus, que é toda Escritura, obviamente, não há nada de errado em promover justiça social. Estamos falando aqui estritamente da missão primordial da igreja que, obviamente, não é de promover coisa alguma senão a pregação do evangelho de Cristo por meio das Escrituras e conforme às Escrituras. E, nesse sentido, instrumentalizar e aparelhar a igreja para uma missão travestida de justiça social são práticas missiologicamente equivocadas, assim como é missiologicamente equivocado defender a ideia de que a igreja deve promover justiça social fora dos limites de suas portas (se a ideia de portas como limites físicos incomoda os cristãos mais progressistas em relação ao modelo de igreja que imaginam, devem pensar, então, em portas como delimitação da missão da igreja, não no sentido literal) porque na Bíblia há menções sobre ajudar e assistenciar ao pobre, à viúva, ao órfão e ao estrangeiro (o que é um equívoco hermenêutico, na verdade, pois quando fazemos saltar das Escrituras tais textos, o panorama sistemático é sempre o mesmo: no Antigo Testamento os assistenciados adentram ao Pacto e no Novo Testamento os assistenciados são sempre os membros pertencentes às igrejas locais, nunca a comunidade externa); também é equivocado pensar que investir no pobre e na justiça social é mais importante que investir na aprendizagem dos já convertidos para a santificação e manutenção da fé (há alguns que pensam que os recursos da comunidade de fé são melhor investidos em caridade do que nas necessidades da igreja; para isso, basta conferirmos o texto de Mateus 26.7-13, que apesar de referir-se principalmente à uma má intenção de Judas Iscariotes quanto ao uso dos recursos, não deixa de referir que Jesus preferiu o uso litúrgico a destinação de recursos para a caridade).

Sobre a destinação de recursos da comunidade de fé, podemos dizer:

1) A destinação dos recursos da igreja deve ser prioritariamente, segundo as Escrituras, para manutenção de missionários, manutenção daqueles se afadigam no ensino da Palavra e investimento maciço nos já convertidos, proporcionando melhores condições de aprendizagem da Palavra, preparando novos líderes, missionários, pastores e evangelistas e assistenciando àqueles que já pertencem à comunidade de fé em suas necessidades (Atos 2.44,45; Atos 4.34-37; Atos 6.1; Atos 20. 33-35; 1 Coríntios 9.13-14; 2 Coríntios 9.12; Filipenses 2.25; Filipenses 4.14-19; 1 Timóteo 5.3,16; 1 Timóteo 5.17-18);

2) Toda e qualquer obra social deve ser feita por causa da evangelização, caso contrário haverá um desvirtuamento da missão da igreja (ou seja, o planejamento estratégico primário deve ser: “como pregamos consistente e sistematicamente o evangelho” e depois “como podemos suprir as necessidades dessas pessoas enquanto pregamos, de fato, o evangelho a elas?”);

3) Os recursos dos crentes devem priorizar a decisão da comunidade quanto à missão da igreja: ninguém deveria pensar que investir em obras sociais é mais importante ou tão importante quanto investir na igreja. Se a igreja é a agência do Reino e o inferno é pior do que a injustiça social, quem investe fora da igreja pensa que a fome é pior do que o inferno, e está completamente cegada pelas demandas desse mundo;

4) Se a igreja é o melhor método evangelístico, é a igreja que deve decidir como aplicar os recursos em justiça social quando esse for o caso. Investir em justiça social e abandonar a igreja é privilegiar o humano em detrimento do eterno; é exaltar as boas obras humanas e seus projetos enquanto a evangelização e a igreja ficam humilhadas diante do mundo por falta de recursos, escoados para as demandas meramente sociais;

5) Jesus não previu céu na terra. A igreja não tem de resolver todos os problemas sociais. A igreja não foi chamada a ser promotora de igualdade, mas de transformação pela Palavra, no poder do Espírito;

6) Jesus voltará para fazer aquilo que a igreja não foi chamada a fazer: novos céus e nova terra é plano divino para o futuro. A igreja deve cuidar muito bem do ensino dos seus santos e na evangelização de novas pessoas.

“Quem milita, não pode se embaraçar com coisas dessa vida, a fim de militar legitimamente” (2 Tm 2.4).

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