qua. mar 20th, 2019
Passagem de pedestres da Cruz - Praia de Maranduba - Ubatuba/SP (antiga Iperoíg, provãvel rota por onde passaram Padre Manoel da Nóbrega e José de Anchieta).

Foi no Brasil onde primeiro se selou a paz. Não por sangue, nem por diplomacia direta, nem por barganhas comerciais, mas pela coragem de homens realmente devotados a Deus e a seu país.

Padre Manoel da Nóbrega foi, sem dúvida nenhuma, um dos maiores homens que já pisaram a terra do Brasil. Ele, D. João, os dois Pedros, Tomé de Sousa, Pero Vaz Caminha, José de Anchieta, Cabral, Mem de Sá, vários bandeirantes -heróis sem nome-, José Bonifácio, Nabuco, entre muitíssimos outros formam nosso grande panteão de heróis e pais construtores da Pátria, lançadores das bases da grande nação que hoje é o Brasil. Cada qual com sua contribuição, contemplam o mais repleto, seleto e único no mundo.

Por volta de 1563 os franceses tentavam implementar uma emboscada na costa do atual Rio de Janeiro. A sociedade francesa era totalmente diversa da portuguesa, eles vinham com uma religião diferente (embora também cristãos, os franceses eram calvinistas, ou seja, protestantes), pretendiam rachar o Brasil, dividindo nosso vasto território, mantido intacto até hoje desde que Portugal aqui chegou (de norte a sul, da foz do Amazonas até a Bacia do Prata). Para alcançar esse objetivo, os franceses tentaram cooptar alguns índios e jogá-los contra os portugueses.

Após alcançar o intento de levar o Lusocristianismo do litoral ao planalto (ou seja, de São Vicente a Piratininga, atual cidade de São Paulo), Padre Manoel havia por bem cumprir outra missão cristã nesta terra -tendo sempre em vista que a conquista maior seria a disseminação do cristianismo, ou seja, missões, era seu principal objetivo, pois via que os indígenas precisavam da luz de Cristo a alumiar suas almas. Tal meta a ser alcançada era extirpar o mal francês, um perigo à unidade desta terra de Santa Cruz (ou seja, Brasil) e à disseminação cristã por aqui.

Os Franceses, a essa altura, já estavam se aliando a alguns nativos por conta de pequenas rusgas criadas com os portugueses, urgia o momento de sanar tais entreveros para que novamente os antigos aliados voltassem a se ajudar mutuamente.

Nóbrega alertava os fiéis acerca dos problemas e riscos em ter os franceses aqui quando pregava os seus sermões, porém já era hora de medidas mais incisivas. Ele pensa um plano e o divide com José de Anchieta. A ideia era que fossem ambos até Iperoíg (atual cidade de Ubatuba, no litoral Norte de São Paulo) conversar diretamente com os líderes indígenas da tribo dos Tamoios. Até então, ninguém havia se arriscado nesse tipo de empresa.

Decorridos dois meses de negociação e conversação entre os padres e os índios, urgia definir as pazes acertadas com os nativos. Nóbrega decide tomar uma medida ainda um pouco mais arriscada: deixa seu amigo Anchieta como “refém”. Os caciques reclamavam de uma ajuda dada por portugueses aos inimigos Temiminós numa guerra tribal. Àquela altura, Nóbrega sabia bem que o mais sensato seria concordar, assumir o erro, por assim dizer, pois o que diziam os índios era a verdade. Porém, com sabedoria vinda do alto soube contornar a situação; além de assumir o erro de seu povo, ele disse que Deus havia se irado com os seus por isso, e por essa razão havia ido por vontade própria, ele mesmo, entregar-se no meio deles, afim de mostrar-lhes que de fato o que queria era selar a paz, entregando a própria cabeça, se preciso. Levou uma profecia, onde dizia que, quaisquer dos que ali estivessem, se quebrassem o pacto, Deus os castigaria pessoalmente (o que realmente veio a acontecer posteriormente, tirando o caráter de simples ameaça, passando realmente para profecia cumprida).

Deixando Anchieta em Iperoíg como garantia, desce à São Vicente, para cuidar do tratado. Após dois meses, consegue um encontro na igreja de Itanhaém com os líderes tribais, eles se abraçam e fazem as pazes ali, naquele momento. No planalto, na igreja do Real Colégio de Piratininga, mais de trezentos homens selam a paz -Tupis e Tamoios da região do Rio Paraíba. Padre Manoel da Nóbrega preside pessoalmente as duas solenidades, tanto em Itanhaém, como em São Paulo (Piratininga).

Nos dois meses em que esteve junto aos Tamoios de Ubatuba, Padre José de Anchieta realiza diversos milagres, que, na realidade, ajudam a conter os ânimos dos brasilíndios ali. Isso nada mais era do que a prova divina, através da atuação do Espírito Santo, na condução da situação pelos irmãos e servos de Cristo Nóbrega e Anchieta; pelo bem do Brasil; pelo bem do cristianismo.

Essa, sem dúvida nenhuma, é uma das mais belas páginas de nossa história, outra em que o Brasil larga na frente, mostrando ser mesmo a terra abençoada e conduzida por Deus. O trato com o nativo aqui sempre foi diferente do adotado em outras nações americanas, por isso nos construímos tendo por base a mestiçagem e a convivência pacífica de diferentes. Somos um povo acolhedor, pacífico e trabalhador, virtudes alcançadas por conta dessa mistura mesma, delineada por gigantes como Nóbrega, Anchieta, Bonifácio, Pedro II, Nabuco e tantos outros!

“Anchieta volta a São Vicente para escrever documento onde relata esses acontecimentos. E, assim, fora celebrado o primeiro tratado de paz das Américas, em 1563, onde o Padre Manoel da Nóbrega representa a Monarquia Portuguesa e Cunhambebe representa os Brasilíndios de sua tribo”. (Tito Lívio Ferreira, História de São Paulo, Vol. I, pág. 53).

(Este texto foi elaborado tendo por base os relatos e documentos historiográficos do historiador Tito Lívio Ferreira).

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