qua. mar 20th, 2019

Nosso mundo está passando por um período histórico em que o nacionalismo e o saudosismo estão em ascensão. Líderes das mais diversas nações estão retornando às suas raízes culturais para revigorarem o patriotismo e a unidade nacional de seus povos. Esse fenômeno pode ser observado na Rússia, na Índia, na Europa, nos Estados Unidos e até no Brasil.

Porém, hoje irei tratar de um caso específico, onde nacionalismo e religião estão servindo de base ao ambicioso projeto do presidente turco Recep Tayyip Erdogan.

O território onde hoje é a Turquia, era o centro do Califado Otomano. Um califado é uma monarquia que governa a comunidade islâmica (Ummah). O Império Otomano dominava grandes áreas do Oriente Médio e do Norte da África. Mas, após uma série de conflitos internos e da I Guerra Mundial, o califado foi extinto e a moderna República da Turquia foi fundada por Kemal Atatürk. Essa república aboliu o Islamismo como religião oficial e adotou o Estado laico.

Com a extinção do califado, o mundo islâmico se fragmentou em diferentes nações. Isso levou à criação da Irmandade Muçulmana por Hassan al Banna, em 1928 no Egito, para que a Ummah voltasse a estar sob a liderança de um califa que devolveria a unidade perdida e expandiria o Islã pelo mundo.

Atualmente, a Irmandade Muçulmana controla a Palestina, o Sudão e a Turquia de Erdogan.

Em 2001, Erdogan fundou o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP). No ano seguinte, obteve uma grande vitória nas eleições parlamentares turcas e conquistou o cargo de primeiro-ministro em 2003. Ficou no cargo por mais de dez anos.

Em 2014, Erdogan anunciou sua candidatura à presidência da Turquia e venceu a eleição no primeiro turno. Desde então, passou a aumentar seus poderes e a enfraquecer a figura do primeiro-ministro — um gesto muito semelhante ao do russo Vladimir Putin. No mesmo ano, foi inaugurado o novo Palácio Presidencial com mil quartos, numa clara demonstração de poder e ostentação.

Também em 2014, foi fundado o grupo terrorista Estado Islâmico. Existem fortes indícios de que o grupo foi financiado por Erdogan e pela Irmandade Muçulmana para gerar instabilidade na Síria e no Iraque, onde vigoram regimes rivais ao do presidente turco, e onde a maioria religiosa é xiita (Iraque), pois o turco é sunita. O Estado Islâmico também passou a atacar os curdos — uma minaria étnica que busca sua emancipação para a criação do Curdistão, que abrangeria o leste da Turquia.

Em 15 de julho de 2016, houve uma tentativa teatral de golpe de Estado na Turquia contra o governo, claramente orquestrado por Erdogan, que serviu de pretexto para um endurecimento do regime e perseguição aos adversários do presidente — algo muito parecido com o Golpe de 1937, que instituiu o Estado Novo de Getúlio Vargas no Brasil. Foi “um presente de Allah” nas palavras do tirano. Funcionários públicos, acadêmicos, juristas, militares e religiosos — entre eles estava o pastor Andrew Bruson — foram presos ou demitidos de suas funções às dezenas de milhares.

Um referendo foi realizado em 16 de abril de 2017, onde foram aprovadas várias propostas de emenda à constituição turca, apresentadas pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento. Entre as medidas aprovadas estão: a extinção do cargo de primeiro-ministro e a adoção de um super-presidencialismo, o fim da autonomia do Poder Judiciário, a implantação do estado de emergência pelo presidente sem a aprovação prévia do Parlamento, e a possibilidade de Erdogan governar a Turquia por mais dez anos.

Nas eleições presidenciais de 2018, o proto-califa foi novamente reeleito em primeiro turno, consolidando de vez o seu poder. É uma questão de tempo até Erdogan se tornar o Califa de Todos os Muçulmanos.

1 thought on “Califa Erdogan

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